icon-ham-close
Mostrar notícias

Cidadãos da Raia, um assunto pendente

6 Nov 2020

Carlos Garcia

EFE
Joana Veloso e  Javier Montejo

Joana Veloso e Javier Montejo

Foto: Carlos Garcia

Lisboa, 6 nov (EFE).- Joana é portuguesa e trabalha em Vilar Formoso; Javier é espanhol e trabalha em Ciudad Rodrigo. São um casal e vivem juntos em Espanha depois de uma autêntica cruzada contra uma burocracia que os surpreendeu, pois nunca pensaram que “uma linha imaginária pudesse separar tanto”.

A história de Joana Veloso e Javier Montejo reflete as contradições que ainda acontecem na Raia, considerada a fronteira mais antiga e longa da Europa, com 1.200 quilómetros.

A pandemia que obrigou a fechar a fronteira entre 17 de março e 1 de julho surpreendeu o casal, que organizava o seu casamento.

“No primeiro controlo fronteiriço vieram-me as lágrimas”, recorda Joana, habituada a atravessar a Raia como se Espanha e Portugal fossem um mesmo território.

Joana vê este espaço fronteiriço como um todo, porque os habitantes de Vilar Formoso e Fuentes de Oñoro partilham lojas, restaurantes, serviços… No entanto, “são dois países diferentes e as normas são distintas”, uma realidade que emergiu com veemência quando se fecharam as fronteiras devido à covid-19 durante a passada primavera.

Com o desânimo ultrapassado, Joana e Javier decidiram procurar uma opção para seguir em frente com o seu casamento -ou pelo menos com a celebração na data prevista, 20 de junho, e encontrara-la na própria fronteira.

Recordaram que há um pequeno descampado que separa um caminho espanhol de Fuentes de Oñoro e a estrada que une Vilar Formoso e Sabugal e organizaram um casamento simbólico no ponto 523 de Espanha e Portugal.

Os familiares de Joana ficaram do lado de Portugal, na parte com uma pedra com um “P” gravado; e os de Javier na zona espanhola, sem atravessar o local com a letra “E”. O casamento verdadeiro está marcado para junho do próximo ano, explica à Efe o casal, que recebe com esperança nestes dias o projeto da nova eurocidade “Porta da Europa”, promovida pelas autarquias das regiões espanholas de Ciudad Rodrigo e Fuentes de Oñoro junto às portuguesas de Almeida e Vilar Formoso.

O objetivo é promover o desenvolvimento conjunto, o investimento, a criação de emprego e a mobilidade entre as populações transfronteiriças.

 

APROXIMAR AS PESSOAS

 

Joana e Javier asseguram em uníssono e enfaticamente que “a figura de uma entidade como a eurocidade é necessária” para evitar experiências semelhantes às que viveram e às que os habitantes das regiões de Almeida (Portugal) e Ciudad Rodrigo (Espanha) sofrem diariamente.

Como são dois países diferentes, apesar das garantias e liberdades oferecidas pelo quadro da União Europeia, “é precisa uma eurocidade que aproxime as pessoas de ambas zonas, que possa criar empregos e que mova as pessoas”, diz Javier.

O seu caso é um exemplo. O facto de Joana ser portuguesa, trabalhar em Vilar Formoso e viver em Espanha pode causar “muitos problemas” para o dia a dia de ambos.

“É muito complicado”, afirma a jovem, que se lembra da quantidade de papelada burocrática com que teve de lidar para viver com o seu parceiro em Ciudad Rodrigo sem estarem legalmente casados. “Quando fui viver para Espanha, tive muitos problemas para abrir uma conta bancária e demorei meses para viver em Ciudad Rodrigo”, explica.

Ciudad Rodrigo fica a 30 quilómetros da fronteira entre Fuentes de Oñoro e Vilar Formoso, onde começa o concelho português de Almeida.

“Quando fui viver para Ciudad Rodrigo não pensava sequer em ir para outro país”, recorda Joana, dada a afinidade e proximidade dos territórios. Javier enfatiza que “deva haver alguma questão legal para o povo da Raia, algo que o unisse um pouco, porque as complicações são muitas”.

 

CRIAR UMA REGIÃO ECONÓMICA

 

Para o autarca de Vilar Formoso, Manuel Gomes, a situação é clara: “A pandemia fez-nos ver que sem os espanhóis não podemos viver e sem os portugueses Fuentes de Oñoro não pode viver”, defende numa entrevista com a Efe.

Nesta fronteira há um sentimento comum de “cidadãos da Raia”, porque os habitantes de ambos países “partilham famílias, ruas, trabalho e é necessário que estejamos unidos”, argumenta Gomes sobre a necessidade de avançar rumo à “Porta da Europa”.

Um dos problemas da Raia é que os seus territórios “estão longe das decisões políticas”, lamenta à Efe Isidoro Alanís, autarca de Fuentes de Oñoro, que assegura que esta eurocidade nasce para “promover espaços empresariais, que gere postos de trabalho e fixe população, já que, caso contrário, “corremos o risco que esta zona desapareça em dez anos”.

Alanís ressalta que “se pode criar uma região económica importante”, já que têm potencial suficiente, especialmente com a sua localização estratégica.

 

UMA CIDADE VISÍVEL

 

Os habitantes desta região fronteiriça consideram necessária a criação da figura de “cidadão da Raia”, como explica à Efe Vítor Nascimento, um português casado com uma espanhola, residente em Ciudad Rodrigo e monitor desportivo nas piscinas municipais de Vilar Formoso.

“Seria importante que se criasse esse cidadão raiano, se querem fazer uma cidade única devia haver um cidadão único, que não haja essas diferenças, já que a 50 metros passas a ser outro cidadão”, argumenta Nascimento.

António Machado, autarca de Almeida, assegura à Efe que a chave passa por “dar oportunidades à população” desta região transfronteiriça e criar “uma cidade visível” entre Vilar Formoso e Fuentes de Oñoro, a par de construir um território entre as localidades de Ciudad Rodrigo e Almeida com uma oferta comum.

O primeiro passo desta instituição será trabalhar para que a população “se senta eurocidadã” e depois unificar projetos entre ambos municípios para que sejam apoiados pelos Governos e a UE, avança o autarca de Almeida.

 

UM LOBBY RAIANO

 

Para Marcos Iglesias, autarca de Ciudad Rodrigo, a chave para impulsionar a Raia luso-espanhola passa por uma “aproximação à Europa”, motivo pelo qual foi criada a eurocidade, para “obter investimentos e prestar mais serviços públicos” em benefício dos seus habitantes.

O autarca espanhol considera importante “este lobby raiano para pressionar as instituições, para que acreditem e apostem (na fronteira) com investimentos e recursos” no território da eurocidade “Porta da Europa”.

Machado conclui os seus argumentos que justificam um território comum recordando que em março, quando foram fechadas as fronteiras, houve “um sentimento que não tinha existido até agora, já que não havia vida nem em Fuentes de Oñoro nem em Vilar Formoso; e ao abri-las em julho chegou a vida novamente”.

Os habitantes da fronteira luso-espanhola e os seus governantes estão de acordo: o futuro da Raia passa por desenvolver projetos conjuntos, sem importar o país de origem.